"A entrada é franca. As pessoas que visitarem o atelier não poderão levar consigo nem criados nem creanças. Os visitantes so serão introduzidos no atelier em grupos de dez pessoas de cada vez. Amanha o quadro não estará mais em exposição." (O Fluminense, 28 de novembro de 1909)

Emociona-me ainda, ao escrever-lhe esta, uma impressão agudamente sadia e agradável.

É que visitei, ontem, em companhia de Epaminondas de Carvalho, o atelier do professor Parreiras.

Mora ele, hoje, em casa da filha e genro, n'um alto da rua Tiradentes e tão alto que quando pusemos o pé no "araxá" e vimos o grande pintor brasileiro, larguei-me com a seguinte, mais merecida hapulação.

"É, professor, você por mais alto que more, tem a sua fama e nome mais altos do que a moradia.

Ele sorriu e nos fez entrar no atelier, nos prevenindo que déssemos contra vista ao quadro que íamos ver.

O quadro em questão era o da fundação de Nictheroy colonial.

Recebemos, ao entrar, a sombra da meia tinta a esquerda do atelier durante uns trinta segundos.

Neste pouco tempo, os nossos olhes catavam pelas molduras que os enfrentavam a luz e os planos dos inúmeros quadros, espaços, croquis e desenhos pontuando as paredes do fundo e laterais.

De súbito ouvimos a voz do mestre em tom de comando.

"Alto! Frente!"

Voltamo-nos.

A luz da claraboia dava de soslaio na figura de Arariboia no centro do quadro histórico da fundação de Nictheroy!

Nada direi agora sobre a tela magistral que há de ir honrar o futuro Paço de Município.

E um prodígio de arte, de beleza e de energia.

Parreiras, o grande artista brasileiro, nunca foi tão artista.

Nunca foi, porque, se na soberba tela, vive toda a alma de pintor, vive mais toda alma de brasileiro.

Falarei depois sobre este estupendo quadro.

Entretanto pretendiam que o tipo de Arariboia estivesse vestido de comendador ou de Guarda Nacional, tal qual uma litografia que o desenhista Pinheiro ou outro ofereceu em 1866 ao velho Mello Moraes (pai). Esta litografia feita há cerca de 300 anos depois de existir Arariboia é uma grossa mentira sobre a estética selvagem do famoso fundador de São Lourenço.

Podemos afirmar que semelhante retrato foi feito em nossos dias por curiosidade, fora da vista d'outro qualquer molde que não fosse o idealizado pelo desenhista de 1866.

Entretanto que o tipo de Arariboia de Parreiras é o de um índio de hoje, de ontem e da história, ainda depois que se extinga a raça.

Por hoje, queira meu velho amigo, publicar esse artigo.

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Nós somos, em assunto de belas artes, um amador jamais um crítico. Escasseia-nos a competência.

O mais que sabemos de pintura é que ela é a arte de exprimir todas as concepções da alma, por intermédio de todas as verdades da natureza, escolhidas e representadas com todas as suas formas e cores numa superfície unida.

Sobre esta superfície em que o espectador espraia os olhos, surgem, muitas vezes, para os competentes, emoções e reparos que estão fora da apreciação de que entende pela alma, descurando-se da matemática das linhas e das cores, ou seja, da anatomia e dos coloridos.

É como dizer que nós, a vista de um belo quadro, recebemos uma impressão de chofre, de súpeto, e ela nos fica esculpida n'alma como o ABC na memoria de uma criança: ao passo que o crítico abalizado é um competente prevenido.

No que se refere as nossas artes, somos ainda de uma simplicidade criminosa, sem que a nossa culpa chegue a agravante de desconhecer o mérito de quem o possui.

Por exemplo: admiramos Bernadelli, porque nunca vimos escultura melhor de que as dele. Entretanto, há tantos poetas, como Olavo, Raymundo, Alberto, corretos e gostosos a quem nós batemos palmas, quando não nos lembramos de G. Dias e C. de Abreu.

É uma opinião sacrílega, seja; por isto damos a mão à palmatoria.

Mas é uma opinião de quem só tem tido uma, a tal respeito.

Duma vez fomos, com Oscar Guanabara, o maestro na crítica-musical, a primeira da ópera Wagner.

Quando saímos, disse-nos ele, radioso:

"Diabo! Deixa lá que tem trechos admiráveis.

É verdade, respondemos medrosos e humildes, ma ...

"Ma ... o que ...?

"É que preferimos uma valsa da Gonzaga...

"??!!" (Não nos retorquiu.)

Pois é de quem tem opinião e teorias do quilate destas e outras que vão ter a apreciação sobre o quadro - Fundação de Nictheroy - pelo professor Antonio Parreiras.

A confecção desta esplêndida e soberba tela que o professor Parreiras vai entregar à Prefeitura, tem uma história.

Não nos alargamos sobre os conselhos que ele ouviu dos mestres de além mares no que diz à organização - histórico - ideal do quadro.

Bastam as seguintes referencias sobre a 1ª concepção do quadro.

Tinham-lhe metido na cabeça que o tipo de Arariboia devia ser vestido de Dom Sebastião ou de comendador, isto porque El-Rei D. Sebastiao lhe mandou uma veste rendada de lambrequins metálicos e debruns medievos, com um medalhão ao peito.

São documentos históricos, estes destas ofertas do rei ao índio.

Mas estes documentos, se honram ao robusto selvagem, nos depreciam atualmente e maximé aos que só foram descendentes de índios para não pagarem foro das terras que foram deles.

Nos depreciam por isto: Dom Sebastião mandou à Ararboia a vesta carnavalesca de seu uso, naquele tempo, e o medalhão, porque, ele - Arariboia arrasara a ferro e a fogo todos os seus compatriotas - os tamoyos - índios como os da sua raça e povoador do nosso litoral.

Naquele tempo, bem pode ser que tais brasões comemoradores de carnificinas e brutalidades, senão, canibalismo, contra irmãos, fossem de uso, notório.

Mas se assim sucedeu, não há um só esboço, em papel, em madeira, em metal, do tipo de Arariboia.

Ele andava nu ou quando muito de sendal, senão de ceroula sem camisa ou de camisa sem ceroula, como em geral andavam os índios, quando se lhes dá roupa para cobrirem as poucas vergonhas.

Mas se quiséssemos aceitar que Arariboia, por uma vaidade de índio, se metesse na farpela dourada de São Sebastião, que era um rapagão de porte altaneiro e robusto, o que veríamos?

O que é verdade histórica, é que no tempo do dr. Salema, já pelos anos de 1500 e setenta e tantos, Arariboia indo visitá-lo, cruzou as pernas, a modo de chim, sobre a cadeira onde se sentara, o que lhe valeu uma repreensão, que seja dito, devolveu-a soberbamente.

Ora, este modo de se sentar em cadeira não se digna com quem está vestido de rei.

Tão impróprio e ridículo seria vermos Arariboia vestido a molde medieval, que se tal se pudesse conceber, o comendador Norberto Silva, que foi o primeiro a escrever largamente sobre o famoso índio, reproduziria a estampa que em 1866, Mello Moraes pai, mandou forjicar para maior reclamo de sua História do Brasil.

E esta estampa ignóbil e falsa, perante a arte e perante a história, estampa que nem tradição tem, porque foi inventada, ontem, especulativamente, que pseudos-descendentes de que talvez já não os tenham senão por afinidade, dizem ser o retrato do Arariboia de 1532.

E exigisse-se de um pintor histórico, que tem responsabilidade de seu nome feito, que pinte um índio brasileiro que viveu no século XVI vestido de rei de Portugal.

Este pseudo-retrato de Arariboia que por aí anda vestido de príncipe carnavalesco, com mascara de cônego empalamado, tem sido uma especulação da qual, também fomos vitima.

E cremos, não fomos os únicos.

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De acordo com os "Arariboias" da Câmara teria o Parreiras de pintar um índio vestido de El-Rei do tempo de Anchieta e Mem de Sá.

E chegou a pintá-lo.

É uma obra de arte, mas é uma calúnia, uma falsidade histórica de que ele deve estar arrependido, graças a Deus e a sua inteligência e ilustração dele Parreiras.

É assim que os "Arariboias", queriam o tipo do fundador da aldeia de São Lourenço.

Não o queriam vestido de índio, porque julgam, talvez, que em geral os selvagens se vestem como os caboclos dos cordões e cucumbis do Carnaval: isto é, com cobras, lagartos, saguis mumificados de mistura com penas de canindés, colares de coco, catolé, peles de anta e conchas de jaboti.

Mas o índio, o selvagem, o temiminó, o Arariboia, do quadro de Parreiras, nada tem disto.

Ele devia ter muito estudado, trabalhado, se cansado para fazer um tipo tão vigorosamente belo como o do quadro da Fundação de Nictheroy, onde outros planos se destacam como notas doces no meio de um grito da clarim.

Este grito é o tipo de Arariboia imponente, sublime de uma energia empolgante.

É preciso se ver o quadro para se aquilatar da beleza do tipo do selvagem.

Ele destaca-se triunfalmente, no meio da tela, desbotando a primeira vista, as outras figuras e como que escurecendo com a sua soberbia estética as dezenas de quadros preciosos que enriquecem o atelier onde o vimos.

Quando em Paris, Parreiras dava a última de mão na famosa tela, deu-se um episódio muito significativo, que prova como um pincel faz despertar com violência, ideias que ferem nossa alma como uma explosão dos sentidos.

É que ele, afora obedecer às leis da perspectiva, movia-se vibrado pelo sentimento e pelo patriotismo.

Mas, por enquanto, vamos abandonar a figura de Arariboia e estudar todo quadro na sua concepção histórica, na sua expressão, nas atitudes, gestos ou movimento de cada tipo.

Ao fundo, n'aba do morro de São Lourenço, um índio curvado, levanta a primeira cruz, cujos braços estenderam-se para derramar o cristianismo em Nictheroy colonial.

Um punhado de sol ilumina o topo do madeiro simbólico, enquanto em atitude solene e respeitosa, de pé um sacerdote lê, talvez a benção da cruz.

Fronteiro, ergue-se as estacas da fundação da primeira igreja.

Este grupo simboliza a religião cristã.

Ladeando para a esquerda vêm-se também indianas, pontuando o morro e tipos de índio preparando comida.

É o tipo simbólico da sociedade.

No centro do quadro surge Arariboia em tamanho natural, de pé, dominando todos, viril, de uma beleza selvagem.

Está de meio perfil. Cobre-lhe o dorso uma pele de onça acabada em flocos brancos de um efeito magistral, tombando-lhe até meia coxa.

A perna direita nua, nervosa, vigorosa, fixando o pé com energia de dominador, destaca-se soberbamente de todo o vulto.

Sente-se que aquela perna donde as linhas e traços dos músculos e nervos sobressaltam parece traduzir uma frase que seria:

"Isso onde piso é meu".

O índio tem os braços cruzados e a impressão da fisionomia é tão dominante e imponente que mete respeito e arrebata o espectador.

A sua solene imobilidade nos põe o espírito em movimento, o seu silêncio parece nos falar alto e forte, como um capitão aos soldados em forma.

Quanta dignidade e grandeza naquele estilo!

Do segundo plano ressalta n'uma harmonia quente, um tipo de cabocla sentada fabricando uma panela. É a indústria primitiva. E a sua frente um selvagem musculoso curva se, escavando a terra donde há de sair a semente nutridora.

O conjunto do quadro é de uma beleza e de uma verdade estraordinária; as figuras postas em cena, o teatro da ação, o caráter da natureza em redor; as atitudes expressivas de cada tipo principal, salientando-se como estátuas de bronze luzidio do fundo da moldura; tudo exprime os pensamentos e o sentimento que o pintor queria exprimir.

Os personagens e as coisas nos aparecem diante dos olhos como realidades nacionais, que nos animam e maravilham.

Parreiras tinha imaginado outro quadro, cujo esboço ainda possui. A concepção deste não é tão vigorosa como a do concluído.

A energia dos tons, a harmonia do conjunto especialmente o vigor triunfal do herói da tela, toca-nos aos sentidos impetuosamente.

Competentes e ignorantes sentem-se arrastados para a figura nobre e altaneira do índio. Uma velha preta que entrara no atelier do mestre em trabalho, parando em frente à tela, perguntou-lhe:

Hêe! Senhorzinho, este é que é o Comandante, não?

E indicou a figura poderosa do afilhado de Martim Affonso.

Manoel Benício

O Fluminense, 26 e 28 de novembro; e 1 de dezembro de 1909.


SÉRIE: ARARIBOIA DE PARREIRAS

01 - Introdução
02 - A Encomenda e as Primeiras ideias do pintor
03 - O Contrato
04 - A Cidade Dividida
05 - Fundamentos para a Composição, por Antonio Parreiras
06 - Carta Aberta ao Insigne Pintor Antonio Parreiras, por J. A. da Silva
07 - Petição pede ao prefeito que não aceite o quadro de Parreiras
08 - O Quadro segundo Manoel Benício
09 - Surge Nictheroy, crítica de O Paiz
10 - O Quadro de Antonio Parreiras, por Rubens Barbosa
11 - Manoel Benício responde a Rubens Barbosa
12 - Parreira responde aos críticos





Publicado em 16/08/2021
Museu Antônio Parreiras