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  MAC 10 ANOS: RECORTES DAS COLEÇÕES JOÃO SATTAMINI E MAC NITERÓI
 
 
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por Claudia Saldanha, Diretora da Divisão de Teoria e Pesquisa

Desde sua inauguração, o MAC de Niterói realiza exposições que têm como objeto a Coleção João Sattamini, hoje com 1212 obras, e a Coleção MAC, com 410 obras. Esta última, ainda em formação, com apenas 26 artistas, foi iniciada em 1996 com uma obra de Farnese de Andrade e outra de João Carlos Goldberg, doadas ao museu. Diferentes "recortes" foram feitos desde então, trazendo à luz aspectos que privilegiam suas abrangências e diversidades.

A esses "recortes" curadores como Reynaldo Roels, Frederico Morais, Paulo Herkenhoff, Victor Arruda, Agnaldo Farias, Luiz Camillo Osorio, Guilherme Bueno, Luiz Guilherme Vergara e Marcia Müller dedicaram seu olhar, ora acolhendo obras que se relacionam entre si, ora empreendendo revisões e organizando antologias de artistas de singular importância para a arte brasileira recente.

Além dos "recortes" das coleções, que buscam destacar determinados aspectos formais, conceituais ou históricos, exposições monográficas vêm sendo especialmente concebidas de forma a homenagear as vanguardas históricas brasileiras. Reunindo a obra de artistas que despontaram em diferentes momentos - em manifestações como o Neoconcretismo nos anos 50, a Nova Objetividade nos anos 60, a Nova Figuração no final dos anos 60 e início dos 70 e a geração dos anos 80 e 90 -, essas exposições promoveram leituras que tiveram como base as coleções Sattamini e MAC.





Mas nem todos esses artistas envolveram-se ativamente em manifestações de grupos ou movimentos artísticos. Alguns, avessos às experiências coletivas, lançaram-se em vôos solitários e, no entanto, não menos relevantes para a nossa história. Nesse grupo de mostras monográficas podemos destacar as exposições de Jorge Guinle Filho, Antonio Manuel, Artur Barrio, Abraham Palatnik, Antonio Dias, Rubens Gerchman, Aluísio Carvão, Ione Saldanha, Raymundo Colares, Hermelindo Fiaminghi, Nelson Leirner e Jorge Duarte.

Mas por que vanguardas? A trajetória desses artistas nos mostra que suas atuações no cenário das artes plásticas, às vezes audaciosas, outras vezes silenciosas, abriram caminhos que seriam seguidos por outros artistas, pavimentando assim percursos que se tornariam históricos. Após alguns anos de distanciamento e uma análise mais aprofundada podemos perceber, por exemplo, que a atividade de Antonio Dias, Rubens Gerchman, Antonio Manuel, Artur Barrio e Nelson Leirner, além de outros artistas daquela geração, inaugurou uma atitude de protesto nos anos 60, que atravessou a difícil década de 70 e gerou um comportamento extremamente crítico de denúncia aos desmandos da ditadura militar, expondo a fragilidade social de um país cuja liberdade de expressão esteve por cerca de vinte anos confiscada. Ao mesmo tempo, a obra de Jorge Guinle Filho e Jorge Duarte, nos anos 70 e início dos anos 80, incentivou uma legião de pintores cuja obra adquiriu traços mais subjetivos e autobiográficos.

Como nos define Frederico Morais, "Vanguarda não é atualização de materiais, não é arte tecnológica e coisas e tais. É um comportamento, um modo de ser e de encarar as coisas, os homens e os materiais, é uma atitude definida diante do mundo. É transformação permanente, o precário como norma, a luta como processo de vida". (1)

Os "recortes" das coleções abaixo relacionados são uma parte da cronologia de exposições do MAC que pode ser consultada na íntegra em um dos apêndices ao final desta publicação. Aqui citamos apenas mostras que proporcionaram estudos aprofundados, produzindo conhecimento e gerando novos olhares sobre o acervo do MAC.

Como resultado foram publicados onze catálogos que contêm textos curatoriais e registros fotográficos das exposições, documentando uma década de exposições na história do museu. Inicialmente elaborada para abordar mostras individuais dos artistas da Coleção João Sattamini, a série de catálogos contempla ainda artistas da Coleção MAC de Niterói e outras exposições.


Exposições

A exposição inaugural Arte contemporânea brasileira na Coleção Sattamini, organizada por Reynaldo Roels, em setembro de 1996, mostrou ao público um panorama do que havia de mais relevante na Coleção que, segundo o curador, é "um dos mais significativos conjuntos de arte produzidos no Brasil entre os anos 50 e os anos 90". A coletiva, que teve duração de um ano, reuniu nomes como Iberê Camargo, Sérgio Camargo, Frans Krajcberg, Lygia Clark, Antonio Dias, Ione Saldanha, Antonio Manuel, Raymundo Colares, Tunga e outros.

Em 1997, a exposição Entre esculturas e objetos, também de longa duração, problematizou a questão da escolha do suporte da obra na arte contemporânea, revelando as múltiplas possibilidades poéticas assumidas pelo "campo escultórico". Luiz Camillo Osorio, então diretor de Teoria e Pesquisa do museu e curador da mostra, reuniu os artistas Farnese de Andrade, Frans Krajcberg, Hilton Berredo, João Carlos Goldberg, Joaquim Tenreiro, entre outros. Em seu texto, Luiz Camillo afirma: "O problema do objeto, como é invocado na arte contemporânea, traz em si uma contradição: é a liberação criadora que resulta da superação do quadro e da escultura tradicionais mas é, ao mesmo tempo, uma tentativa da criação de uma nova categoria, que seria tão acadêmica e tradicional quanto as anteriores". (2)

Paralelamente à mostra de esculturas e objetos no segundo andar do museu, o salão principal foi ocupado pela poderosa produção pictórica de Jorge Guinle Filho. A homenagem ao artista nos 10 anos de sua morte reuniu um conjunto de quinze pinturas realizadas entre 1980 e 1986, período mais importante de sua carreira. Reynaldo Roels, curador da mostra, nos lembra no catálogo que Jorge Guinle era "artista consciente da tradição pictórica moderna, de seus impasses e crises, (…) detentor de uma cultura artística extensa que foi um dos motores de sua atividade – assumindo a tarefa difícil de dialogar diretamente com os clássicos da arte moderna". (3)

A exposição de Joaquim Tenreiro, curada por Janete Costa, ocupou todos os espaços do MAC no ano de 1998. Esculturas e relevos policromados e alguns móveis reunidos formaram um belo contraponto à arquitetura modernista de Oscar Niemeyer. Roberto Pontual classificou a obra deste artista-artesão, exímio marceneiro e criador de peças de design, como pertencente à geometria sensível. Cláudio Valério Teixeira, na época presidente da Fundação de Arte de Niterói, nos lembra que "Tenreiro foi marcado pela influência da arte concreta brasileira e sua obra encontra-se perpassada pelas linhas da Optical Art, sobretudo nos relevos, onde distingue-se o reconhecimento da arte cinética". (4)

Com a exposição Ocupações/descobrimentos, os artistas Antonio Manuel e Artur Barrio aceitaram o desafio de ocupar os espaços expositivos desenhados por Oscar Niemeyer, interferindo, redimensionando e criando inusitadas relações entre paredes, chão e janelas. Enquanto Antonio Manuel criou vãos para a varanda, reinventando percursos para o espectador, Barrio apagou a iluminação artificial do salão central e espalhou pedaços de laca pelo chão produzindo um ambiente peculiar de sensações visuais e olfativas. Luiz Camillo Osorio descreveu a exposição em seu texto para o catálogo: "(…) Um vazio denso e com cheiro nasceu de dentro da geometria irregular do salão central. O chão virou mar. (…) A laca cor de âmbar, espalhada pelo chão, fazia cintilar o pequeno ponto de luz amarela, transformando o tapete em um mar crepuscular". (5)

Ainda em 1998 o artista Flávio-Shiró realizou importante individual com obras da Coleção Sattamini e trabalhos recentes. Em comemoração aos noventa anos da imigração japonesa no país, a exposição contou com vinte obras do período de 1964 a 1997. Segundo Luiz Camillo Osorio, em seu texto para o catálogo, os anos 60 foram um importante período da carreira de Flavio-Shiró – no qual o artista empregou uma "gestualidade estilizada de origem oriental misturada à carnalidade da tradição ocidental".

A exposição Espelho da Bienal, também de longa duração - de outubro de 1998 a junho de 1999 - e com curadoria de Rubem Breitman, mostrou a obra de 73 artistas da Coleção Sattamini que participaram da Bienal Internacional de São Paulo, em diferentes edições. Entre os artistas participantes podemos citar Anna Bella Geiger, Paulo Roberto Leal, Angelo Venosa, Beatriz Milhazes, Ivens Machado, Leonilson e Waltércio Caldas.





Em 1999, a Retrospectiva Abraham Palatnik, com curadoria de Frederico Morais, mostrou para o grande público a obra deste que é um dos mais importantes artistas cinéticos brasileiros. Palatnik participou da primeira Bienal de São Paulo, em 1951, a convite de Mário Pedrosa, com um objeto cinético intitulado Aparelho cinecromático, antecipando-se à primeira mostra de arte cinética em Paris, em 1955. Durante muitos anos afastado dos museus e galerias de arte, Palatnik continuou trabalhando, mas apenas recentemente a exposição do MAC, um livro e um vídeo resgataram a importância de sua vasta obra.

Anos 2000

Antonio Dias: Os anos 70 na Coleção João Sattamini, outra exposição monográfica da maior importância, realizada em 2000, mostrou a produção do artista que se destacou com sua obra política no final dos anos 60. A mostra contou com treze pinturas e um álbum com dez xilogravuras. Segundo Paulo Sergio Duarte, "é no final dos anos 60 que o artista redireciona sua investigação estética e abandona questões e pesquisas extremamente bem-sucedidas em busca de um território novo: as relações entre a palavra e a imagem". (6)

Com a mostra Pinturas na Coleção Sattamini, em julho de 2000, Luiz Camillo Osorio realizou o contraponto à sua curadoria anterior que tratava das obras tridimensionais da coleção. O curador reuniu pinturas dos artistas Antonio Manuel, Carlos Vergara, Raymundo Colares, Eduardo Sued, Artur Barrio, Paulo Pasta e outros.

A exposição Aluísio Carvão e Ione Saldanha, em 2001, foi uma homenagem a estes dois coloristas brasileiros que se dedicaram à pesquisa da cor. Inaugurada em abril a mostra foi uma reverência especial à artista Ione Saldanha, falecida em janeiro daquele ano. Com pinturas, bambus, ripas e bobinas, a exposição encerrou um pequeno retrospecto da carreira da artista. "… os bambus podem ser vistos como ripas girando em torno de um eixo vertical - pintura sem avesso (…). Pode-se dizer, igualmente, que suas ripas e empilhadinhos, tanto quanto seus bambus e bobinas, apenas tridimensionalizam os retângulos e círculos que integravam o vocabulário geométrico de sua pintura até 1966 - data do último quadro pintado por Ione." (7)

Tempo - Rubens Gerchman, exposição que ocupou o salão principal e a varanda no mesmo ano, também mostrou a obra política do artista produzida entre 1965 e 1979. A exposição destacou trabalhos relevantes para a formação do movimento da Nova Figuração, em meados dos anos 60, como Lindonéia, Caixas de morar e Trabalhador morreu. Como disse Reynaldo Roels Jr. no catálogo da mostra, as imagens de Gerchman são um "ataque frontal à estética, uma antiestética capaz de provocar um profundo desconforto ao olhar brasileiro, então ainda satisfeito com a tranqüilizadora identificação entre arte e belo". (8)

A exposição de Raymundo Colares no início de 2002 revelou ao público um excelente grupo de obras deste artista precocemente falecido, aos 42 anos. Suas pinturas com tinta esmalte sobre chapas de alumínio e também seus gibis, um importante grupo de trabalhos pertencente à Coleção João Sattamini, revelam a intensa atividade do artista no final dos anos 60. Ligia Canongia escreveu certa vez que "a pintura de Colares, como nas histórias em quadrinhos e no cinema, constitui, em última instância, uma ‘edição’ de cortes efetuados no plano. Fragmentar e reconstruir esses fragmentos de forma pulsante e caótica é falar da perda da totalidade da imagem, da sua unidade perdida. E é falar também da fragmentação do espaço e do tempo do próprio homem urbano nas grandes cidades". (9)







Diálogo, antagonismo e replicação na Coleção Sattamini, em maio de 2002, primeira exposição organizada por Guilherme Bueno, então diretor da Divisão de Teoria e Pesquisa, mostrou a obra de diversos artistas da Coleção e gerou a exposição Mapa do agora - Arte brasileira recente na Coleção João Sattamini do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que viajou para São Paulo e ocupou o Instituto Tomie Ohtake no final do mesmo ano.

Coleção João Sattamini - Modernos e contemporâneos / Esculturas e objetos, também organizada por Guilherme Bueno, situou nos anos 50 o período em que a escultura brasileira atingiu seu momento crucial, quando adotou novos materiais e técnicas, e tornou-se menos preocupada em apresentar uma "fatura" pessoal do que com a qualidade plástica da obra em si. Segundo o curador, é desta experiência construtiva que surge um novo campo de possibilidades, marcadas por uma "vontade experimental" das obras produzidas nos anos subseqüentes.

Forma/suporte-suporte/forma, coletiva curada por Guilherme Bueno e Marcia Müller, diretora de Acervo do Museu, de maio a agosto de 2003, colocou em evidência a eleição pelos artistas de diferentes suportes como tecido, madeira, pedra e metal. Os curadores proporcionaram uma "reflexão acerca da relação entre o suporte e sua forma na construção do espaço plástico". Dividida em três módulos – construção do espaço por adição; estrutura interna e espaço externo; estrutura externa e espaço interno –, a mostra evidenciou aspectos como a autonomia adquirida pela obra de arte, a partir do modernismo.

Ainda em 2003 Luiz Aquila ocupou o salão principal e a varanda do museu com uma individual de pinturas. A retrospectiva ganhou uma obra inédita, uma "tela única", feita especialmente para o espaço do MAC e que dialogou com a arquitetura de Oscar Niemeyer. Naquele mesmo ano, uma exposição de pinturas realizadas entre os anos 50 e 80 e gravuras recentes de Hermelindo Fiaminghi ocupou o segundo andar do museu. Para Guilherme Bueno, curador da mostra, a produção de Fiaminghi assume um lugar bastante singular dentro das linguagens construtivas no Brasil. "Esta experiência (concreta) da visualidade corresponde à tentativa de obter o máximo que seus elementos possam fornecer: a cor deve lograr atingir seu timbre mais elevado ou mais profundo. A superfície ou pincelada deve manter ora uma concisão, ora sua individualidade intuitiva. A pintura, portanto, demarca-se curiosamente como uma experiência radical da visualidade, uma vez que deveria conter em si toda força expressiva." (10)

Ministro Gilberto Gil no palco do Teatro ainda inacabado. Foto de Roberto Moreira - O Flu
A mostra Coleção Sattamini - Modernidade transitiva, de curadoria de Guilherme Bueno no início de 2004, apresentou uma seleção de obras representativas do período de transição entre o modernismo e os primeiros passos para a constituição de um vocabulário abstrato cujos resultados constituíram as bases para o movimento concreto e a abstração lírica informal no final dos anos 40 e início dos anos 50.

Outra mostra importante também organizada por Guilherme Bueno foi Os anos 60 na Coleção João Sattamini. Nela, Bueno enfatizou diálogos propostos na época pelo movimento conhecido como Nova Objetividade, a partir de enfrentamentos com a Pop Art norte-americana e o Nouveau Réalisme francês. A partir de obras de artistas da Coleção Sattamini, Bueno identificou que "a politização da arte como tentativa de resistência ao regime militar, a absorção pela cultura ‘erudita’ de uma nascente cultura de massa local, a irreverência e a iconoclastia desmistificadora questionam o ‘bom gosto’ e a noção do belo"

Participaram da exposição artistas que trabalharam intensamente durante o período como Nelson Leirner, Antonio Dias, Antonio Manuel, Barrio e Carlos Zílio, para citar apenas alguns. Por ocasião das comemorações dos vinte anos da Geração 80 realizadas pelas instituições culturais do Rio, o MAC apresentou a antologia Casa 7, organizada por Guilherme Bueno com base nas coleções João Sattamini e MAC de Niterói. O Grupo Casa 7, formado pelos artistas paulistas Carlito Carvalhosa, Rodrigo Andrade, Fábio Miguez, Nuno Ramos e Paulo Monteiro, fez do trabalho coletivo de ateliê uma prática que motivou troca de idéias e experiências, debates e até mesmo procedimentos como o uso da tinta industrial.

Jorge Duarte - Breve antologia plástico-poética, organizada pelo artista Victor Arruda, em 2004, mostrou um conjunto de obras dos últimos 25 anos de Jorge Duarte, algumas pertencentes à Coleção Sattamini e outras de outras coleções. Guilherme Bueno pontua em seu texto para o catálogo que a obra de Jorge Duarte tem como fio condutor a exploração inquieta e simultânea de inúmeros caminhos poéticos. Esta multiplicidade não significa, no entanto, dispersão. Ao contrário, é justamente este processo de "colagem" que faz com que a obra adquira um novo sentido, torne-se coisa, e nos faça pensar a pintura de forma livre, como um campo de vitalidade.

Em outubro de 2005, o MAC inaugurou a exposição Por que museu?, de Nelson Leirner, que ocupou o salão principal e a varanda do museu com obras dos últimos 10 anos da carreira do artista. Leirner realizou mostra impecável na qual até mesmo a instituição – e por tabela instituições projetadas para abrigar obras de arte de um modo geral – não ficou de fora da sua crítica mordaz. De acordo com Agnaldo Farias, curador da mostra, "Da Monalisa, o mais conhecido alicerce da arte ocidental, à procissão de estatuetas e miniaturas que dessa vez invade a grande sala desse museu, a obra de Nelson Leirner alimenta-se da vida cotidiana em suas versões variadas, da mais sofisticada à mais ordinária e acanalhada. (…) Leirner apropria-se desses dados para jogá-los nas nossas caras sob os signos do humor, da violência (…) além de muita ironia". (11)

Ligia Clark

Em setembro de 2006, em comemoração aos 10 anos do MAC, a exposição Abrigo poético - Diálogos com Lygia Clark reuniu pela primeira vez 22 obras da artista pertencentes à Coleção João Sattamini, assim como obras de outros artistas que, influenciados pelo desenvolvimento da arquitetura brasileira, adotaram o projeto construtivo implantado nos anos 30 e lançaram-se a uma série de experimentações e a uma pesquisa estética sem precedentes no país. Segundo os curadores Luiz Guilherme Vergara, Claudia Saldanha e Beatriz Jabor, a mostra trouxe à tona a produção de artistas cujos caminhos proporcionaram diálogos que nortearam a arte brasileira nas décadas seguintes.

No salão principal do museu, obras de Lygia Clark, expostas em cronologia, dividiram o espaço com outras do mesmo período ou mesmo de períodos anteriores, como as de Alfredo Volpi, Aluísio Carvão, Amilcar de Castro, Antonio Maluf, Dionísio Del Santo, Hélio Oiticica, Hermelindo Fiaminghi, Ivan Serpa, Maria Leontina, Rubem Ludolf, Sérgio Camargo e Samson Flexor.

No segundo andar, aos artistas contemporâneos a Lygia Clark foram reunidos outros de gerações mais recentes, de forma a mostrar diálogos que evidenciam a valorização da expressão e o privilégio da experiência como momento gerador da obra. Em outras palavras: para a geração que surgia, ainda no final dos anos 50 e início dos 60, o quadro não era mais um suporte para a obra, mas um campo ampliado que transcendia, integrando-se ao espaço externo. Desta forma, obras de Adriano de Aquino, Eduardo Sued, Décio Vieira, Dudi Maia Rosa, Haroldo Barroso, Hércules Barsotti, Hermelindo Fiaminghi, Ione Saldanha, João José da Silva Costa, Milton Dacosta, Mira Schendel, Lothar Charoux, Luciano Figueiredo, Manfredo Souzaneto, Paulo Roberto Leal, Raymundo Colares e Franz Weissmann projetavam a pintura para além da superfície do quadro, integrando-a ao espaço externo.





A autonomia conquistada pela obra de arte com as teorias concretistas cedeu lugar a experiências estéticas de toda ordem. Na América Latina a arte cinética e a arte ótica assumiram grande importância, manifestadas nas obras de Abraham Palatnik, Décio Vieira, Dionísio Del Santo, João Carlos Goldberg, Joaquim Tenreiro e Ubi Bava, também reunidas na exposição.

Como resultado do rompimento com os ideais construtivos, ao longo e após os anos 60, surgiram pesquisas como a nova figuração, a arte conceitual e outras práticas pós-construtivas. Iniciadas com os Bichos de Lygia Clark, os Relevos espaciais de Oiticica e o Balé neoconcreto de Lygia Pape, essas experiências deslocaram o observador de sua posição estática para a de participante da obra. Lygia Clark encontrou na psicanálise um terreno fértil a partir do qual propôs sessões terapêuticas com utilização de seus "objetos relacionais". Já Hélio Oiticica buscou nos Parangolés uma integração completa e vivenciada do "participador".

Artistas como Antonio Dias, Antonio Manuel, Artur Barrio, Carlos Zílio, Ivens Machado, Jorge Duarte, Tunga, Victor Arruda, Wanda Pimentel e, mais recentemente, Cabelo, Cristina Salgado, Ernesto Neto, Eliane Duarte, Jarbas Lopes, José Patrício, João Modé, Marcos Cardoso, Michel Groisman e Nazareth Pacheco criaram, ao longo das últimas décadas, uma linguagem própria que aparentemente nada deve às nossas origens construtivas. Mas se lançarmos um olhar atento sobre suas obras, em diferentes momentos de suas trajetórias, poderemos observar que não apenas a face mais branda do Neoconcretismo mas também suas propostas de ruptura, que inseriram definitivamente o observador no campo de ação, tiveram grande influência nas opções estéticas e conceituais da arte brasileira contemporânea.

Para ilustrar este rico momento os vídeos Memória do corpo, de Mário Carneiro, sobre Lygia Clark, e LYGIAPAPE, de Paula Gaitán, foram exibidos em conjunto com Disciplina do caos, sobre Abraham Palatnik, O perfil da linha, sobre Amilcar de Castro, Sérgio Camargo, 1984 e Colares 1987. Ainda como parte das comemorações dos 10 anos do MAC, a exposição O que eu faço é rádio!, em parceria com a Rádio MEC e com curadoria de Lilian Zaremba, ocupou a varanda, o pátio e a rampa do MAC com instalações sonoras e visuais construídas por Augusto Malbouisson, Enrica Bernardelli, Paulo Vivacqua, Paulo Nenflidio e Romano, assim como por "um jardim de memórias ativadas pelo roteiro radiofônico" proposto por Zaremba. Segundo a curadora, "no belvedere deste novo milênio, quando a radiodifusão multimídia introduz novas ferramentas para o Rádio – imagens, texto, arquivos, hipertexto, ipods, entre outras possibilidades –, suas diversas faces parecem convergir nessa zona difusa da rede cibernética. Nela talvez agora possa emergir o Rádio, de sua histórica invisibilidade".

(Texto originalmente publicado no Catálogo MAC - 10 Anos, 2006)


NOTAS:

1. MORAIS, Frederico. Arte é o que eu e você chamamos arte. Rio de Janeiro: Record, 1998.
2. OSORIO, Luiz Camillo. Entre esculturas e objetos. In: MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE NITERÓI. MAC 1 ano. Niterói, 1997. p. 8.
3. ROELS JR., Reynaldo. Jorge Guinle. In: MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE NITERÓI. MAC 1 ano. Niterói, 1997. p. 3.
4. TEIXEIRA, Cláudio Valério. Encontro com Joaquim Tenreiro. In: TENREIRO, Joaquim. Joaquim Tenreiro. Niterói: MAC, 1998. p. 9.
5. OSORIO, Luiz Camillo. Artur Barrio. In: BARRIO, Artur. Artur Barrio. Niterói: MAC, 1997. p.12.
6. DUARTE, Paulo Sergio. Um depoimento. In: DIAS, Antonio. Antonio Dias: os anos 70 na Coleção João Sattamini. Niterói: MAC, 2000. p. [15].
7. MORAIS, Frederico. Ione Saldanha. In: SALDANHA, Ione. Ione Saldanha. Rio de Janeiro: Paço Imperial, 1996. p. [9-10].
8. ROELS JR., Reynaldo. Rubens Gerchman, obras 1926-1979. In: GERCHMAN, Rubens. Rubens Gerchman. Niterói: MAC, 2001. p. [8].
9. CANONGIA, Ligia. Sobre o artista e a exposição. In: COLARES, Raymundo. Trajetórias. Rio de Janeiro: Centro Cultural Light, 1997. p. 9.
10. BUENO, Guilherme. Hermelindo Fiaminghi na Coleção Sattamini. Niterói: MAC, 2003
11. FARIAS, Agnaldo. A produção recente de Nelson Leirner. In: LEIRNER, Nelson. Por que museu? Nelson Leirner. Niterói: MAC, 2006. p. 8.






Tags Claudia Saldanha, João Sattamini, Farnese de Andrade, João Carlos Goldberg, Guilherme Bueno, Guilherme Vergara, Marcia Müller, Ligia Clark,




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