A HISTÓRIA DO INÍCIO
 
 
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"Como é fácil explicar este projeto! Lembro quando fui ver o local. O mar, as montanhas do Rio, uma paisagem magnífica que eu devia preservar. E subi com o edifício, adotando a forma circular que, a meu ver, o espaço requeria. O estudo estava pronto, e uma rampa levando os visitantes ao museu completou o meu projeto."

Oscar Niemeyer (2006)



Foi num dia ameno de maio, 1991. Eu acompanhava o arquiteto Oscar Niemeyer e o prefeito Jorge Roberto Silveira, procurando na orla marítima um terreno adequado ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Mas no meio do caminho, no mirante da Boa Viagem, já era evidente que o destino acertara. Seria ali o museu que ainda não tinha forma, mas nascia com invencível vocação de ser.

O prefeito, que não era de meias medidas, encarregara-me de convidar Oscar Niemeyer, ver se ele queria fazer um museu de arte contemporânea em Niterói. Fui a Anna Maria e falamos com Oscar. Toda a pequena história dos cinco anos que se seguiram é, aliás, marcada por essa mágica e feminina presença: uma intuição rara e sensível, sua participação foi de uma competência tão constante e discreta que parece implícita, e é tempo de registrar. Porque João e Sylvia Sattamini entram no MAC com a coleção, e sua generosidade inteligente já se integra ao sucesso do museu. E os críticos e curadores, crentes da próxima hora, têm o resto da vida para animá-lo.

No dia 15 de julho, o Arquiteto e o Prefeito apresentaram à imprensa o anteprojeto arquitetônico: belo e absolutamente surpreendente, já resolvido, na escala paisagística e na forma-estrutura de concreto armado, com apoio central – aflorando do espelho d’água que é um eco do mar – como um firme caule que se abre em flor, chama, cálice? Para conter as salas de trabalho, o nobre e vasto salão de exposições, a varanda belvedere a toda a volta e os seis setores do mezanino, onde o ritmo das vigas protendidas em balanço de 11 metros e a penumbra museológica lembram paradoxalmente a calma de criptas milenares.

A obra foi inaugurada no dia 2 de setembro de 1996. Alguns anos de história e já os fatos e personagens intermediários – embora fundamentais – vão se esbatendo sob a sombra dos protagonistas maiores: o MAC é criação e decisão do arquiteto Oscar Niemeyer e do prefeito Jorge Roberto Silveira. A história crítica sempre se funde com a história monumental ou mítica, guardando-se o resto na história que Nietzsche chamava de antiquária. Mas nesses recantos de memória, ainda lembro o dia – era secretário da Cultura de Niterói – em que fui procurado por Anna Maria Niemeyer, amiga de toda a vida, e pelo colecionador João Sattamini, acompanhados pelo agressivo artista, mas civilizadíssimo curador da coleção, o pintor Victor Arruda. O famoso colecionador queria condições favoráveis para doar à nossa cidade a sua coleção de obras de arte contemporânea brasileira – a maior do país no setor. Pensavam em reformar prédios antigos, a meu ver mal localizados para a evolução urbana, já então incessante, de Niterói.





O tempo decorrido foi bastante para que o museu temperasse a sua primeira equipe técnica – como esquecer as reuniões com Luiz Antonio Mello estimuladas pela ansiedade fidalga de João Sattamini? Anna Maria, nem sempre de longe, montou com Victor Arruda a orquestração polifônica de A caminho de Niterói, no Paço Imperial da Praça Quinze, onde minipeças e grandes formatos encontraram uma unidade que era a antevisão do MAC. Os móveis também vieram de Anna Maria: poucos, mas afinadíssimos – volume, cor e textura – para ambientação do espaço arquitetônico. As tarefas executivas deslizaram tão naturalmente para as mãos firmes de Dôra Silveira que chego a pensar que foi o destino mesmo do museu que quis assim. E rapidamente passou-se o resto desta narrativa. Juntaram-se a nós – para a museologia, a teoria e a pesquisa, a arte-educação, a arquitetura museográfica e a administração – Marcia Müller e Rose Miranda, Luiz Camillo Osorio e Guilherme Vergara, Sandro Silveira, Ricardo Brugger e Manoel Vieira, Telma Lasmar e Alexandre Vasconcelos. Peter Gasper trouxe a sua alquimia luminosa. A curta distância, o olhar culto e fraterno de Cláudio Valério Teixeira e os companheiros eficientes da Secretaria da Cultura e da Emusa… Com Oscar Niemeyer, veio a equipe de desenvolvimento, Jair Valera e Anna Elisa Niemeyer, a fiscalização veterana do Hans Müller. E, é lógico, a ciência de Bruno Contarini, cujo cálculo para a estrutura de concreto armado respondeu fielmente à ousadia formal da arquitetura.

Enfim, ressurgiam, de fato, em nosso MAC de Niterói os mais velhos amigos da arte e dos artistas na história do ocidente: o Patrocinador, no caso o Poder Público com a visão do estadista, o Arquiteto com sua obra plena de futuro e o Colecionador, que precedeu na história o mercado de arte e os museus.

A luta revolucionária de Oscar Niemeyer pela "idéia da liberdade plástica" é conhecida. Do Baile na Pampulha ao Ibirapuera e, depois, Brasília, o Partido Comunista francês, ou o Centro Cultural do Havre, na Universidade de Constantine, no Caminho Niemeyer de Niterói, no Setor Cultural que se ergue em Brasília, a articulação de formas e volumes, a instauração de espaços inovadores, tudo compõe um espetáculo arquitetural único e inigualável.

A relação inventiva de Oscar Niemeyer com o cálculo do concreto armado fixou-lhe, através de três vitórias – a leveza arquitetural, os grandes vãos e a forma-estrutura –, uma posição histórica de liderança na arquitetura contemporânea, e o MAC de Niterói é o produto mais recente dessa evolução niemeyeresca: parece a síntese de todas as conquistas que, desde as antigas catedrais, levaram avante a audaciosa vontade de dominar o espaço construído e a paisagem da Terra.

Preste o visitante atenção, ao subir a rampa da entrada, nas sutilezas intrigantes e nas significações da criação arquitetônica – verá que à emoção artística se junta uma nítida visão humanista. A rampa não nasce, na verdade, de pura preocupação plástica; funciona, sobretudo, como um dispositivo visual. Percorrê-la é olhar forçosamente o grande volume branco que cresce a cada passo, enquanto desfila lentamente ao fundo o histórico panorama da Guanabara, como um ciclorama fantástico. Ou seja, a rampa é o trajeto de um passeio arquitetônico, quem sabe? A sugerir a rotação da natureza em volta da forma branca, recortada no céu por "uma linha que nasce do chão e, sem interrupção, cresce e se desdobra, sensual, até a cobertura…" propositalmente circular. Uma visão cósmica; não do universo científico, mas de uma apropriação poética e ideológica do mundo. Em nossa época, ao falirem as determinações históricas, ainda maior é a liberdade, a livre escolha de um novo humanismo, fundado na ética e na busca do conhecimento. A beleza do MAC vem exatamente da transcendência poética e onírica dessa crença no futuro.

Escrevera o texto acima para um livro que não se fez. De lá para cá, entretanto, prosseguiu a vida do MAC. Diz o povo que não há nada como um dia depois do outro e diz Marc Bloch (Le Métier d’historien, 1947, 1952), nas citações de J.C. Argan (1969) e P. Ricoeur (1978, 1983), que "não se faz história, a não ser com fenômenos que continuam…" ou "que não haveria coisa alguma a compreender, não haveria história, senão por certos fenômenos que continuam…" Muitas posições se renovaram mas, como queria Bloch, prosseguem as mesmas funções nesses acontecimentos outros.

O prefeito Godofredo Pinto e o secretário da Cultura Marcos Gomes, para não falar de Marilda Ormy, presidente da Fundação de Artes de Niterói, retomaram o impulso e levam o Museu adiante, com vigor, amizade e compreensão. E o livro do MAC finalmente saiu, ou o leitor não teria chegado até aqui.

Ítalo Campofiorito (2006)
Arquiteto e Crítico de Arte / Membro do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Contemporânea de Niterói




Publicado em 13/06/2016






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